quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Dois braços decepados, dois crimes, muitos culpados

Estimados leitores(a) antes de tratar do assunto ao qual me fez retornar  a este universo virtual, quero que saibam o quanto sou grata por prestigiarem este humilde espaço.

A manchete em questão nos é  apresentada pela imprensa como mais um caso trivial, porém muito me indignou esta em especial mostrando o que se segue em um repetitivo ritmo de tragédias neste país dominado por políticos corruptos, médicos assassinos e gananciosos, insensíveis a dor alheia.  Se eu fosse expor em palavras toda a minha revolta este post se estenderia demais,por isso finalizo aqui.
E deixo claro que concordo com o ponto de vista do autor ao que se refere ao fato de que Todos Nós somos participes destes acontecimento seja  de forma direta ou não. Quando nos calamos diante dos fatos, quando aceitamos tudo o que é imposto sem questionar assumimos a culpa do que vira depois.
Sendo assim fica a critério de todos os seus encargos de consciência aceitar a indiferença dos governos e autoridades que nos tratam somente como mais um dentre milhões!
Pri
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Texto de: André Forastieri
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Manchete de ontem: mulher quebra o braço. Vai para hospital público. O braço gangrena - negligência. Ela morre. Manchete de hoje: mulher tem braço amputado. Foi empurrada da plataforma do metrô por um louco Sobreviveu, está na UTI. Nos dois casos parece crime. Nos dois casos a responsabilidade vai muito além.

Aldinez da Silva, 38, quebrou o braço caindo de moto, em Maceió. Em vez de cirurgia, teve o braço engessado, no Hospital Geral do Estado. O braço apodreceu. A dor era intensa. No hospital, só trocaram seu gesso.
Um médico se ofereceu para operar, mas só se lhe pagassem R$ 3 mil por fora. A família conseguiu arrecadar R$ 2 mil. Nada feito. A infecção tomou corpo de Aldinez. Essa foto registra como estava a mão dela. Como alguém pode ser negar a ajudar uma pessoa que está sofrendo tanto?
mao Dois braços decepados, dois crimes, muitos culpados
Maria da Conceição foi empurrada da plataforma. Por um louco, parece; cometeu o crime e saiu sorrindo. Do jeito que é o Metrô em São Paulo, o incrível é que não aconteça uma dessa a cada hora. Terça passada eu estava no metrô Barra Funda, cinco e meia da tarde. Plataforma lotada e lotando cada vez mais. Ninguém respeita a linha amarela de segurança.
Empurra empurra. Quase que cai nos trilhos um gordão espaçoso, que estava bem na pontinha. Todo dia é isso. Pela única foto disponível, Maria da Conceição é bem bonita. Completou 28 anos ontem. Trabalhava no dia que perdeu o braço. Que judiação.
Se tivesse seguro saúde, Aldinez estaria hoje em casa, curtindo os cinco filhos.
Se estivesse dirigindo, Maria da Conceição não teria perdido o braço, no dia que completou 28 anos.
É uma maneira de colocar as coisas. É a única maneira que o Brasil nos
oferece: correr atrás dinheiro, ao custo que seja, para tentar escapar da vala comum.
Há uma maneira melhor de viver. Começa reconhecendo que os dois casos têm os mesmos responsáveis: o poder público. O Brasil. No limite: nós.
Se o atendimento da saúde pública fosse digno, Aldinez estaria viva.
Se o transporte público fosse digno, Conceição estaria inteira.
Porque não é? Porque aceitamos que seja assim.
Criminosos e loucos e negligentes sempre existirão. Mas criamos um ambiente propício para a desgraça. Nenhuma surpresa que todo dia seja esse inferno.
Anos atrás, o senador Cristovam Buarque propôs que criássemos uma nova
lei: todo filho de político e funcionário público seria obrigado a estudar em escolas públicas.
É o único jeito de garantir que os poderosos vão destinar recursos para o ensino público, explicou. Claro que ele sabia que uma lei como essa jamais seria aprovada pelo próprio Congresso. Era marketing, provocação, ou os dois.
Pois é a única lei que precisa ser aprovada no Brasil. E não só pra educação. Para tudo. Só no dia que os gestores públicos tratarem seus acidentes no SUS, e forem para o trabalho de metrô e ônibus e trem, teremos o saúde e transporte que todos merecemos. Se é para ir para o pau nas praças, é uma causa bem melhor que tentar cancelar a Copa.
Enquanto não mudamos o Brasil, cabe assumirmos, a cada dia, a culpa por uma nova manchete, mais uma Aldinez, outra Conceição.
Pode ser crime do médico negligente, do louco que empurrou.
É responsabilidade de todos nós.