sábado, 9 de junho de 2012

"Cuidado com os burros motivados"

Observador contumaz das manias humanas, Roberto Shinyashiki está cansado dos jogos de aparência que tomaram conta das corporações e das famílias. 


Nas entrevistas de emprego, por exemplo, os candidatos repetem o que imaginam que deve ser dito. Num teatro constante, são todos felizes, motivados, corretos, embora muitas vezes pequem na competência. Dizem-se perfeccionistas: ninguém comete falhas, ninguém erra.
Como Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) em Poema em linha reta, o psiquiatra não compartilha da síndrome de super-heróis. “Nunca conheci quem tivesse levado porrada na vida (...) Toda a gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, nunca foi senão príncipe”, dizem os versos que o inspiraram a escrever Heróis de verdade (Editora Gente, 168 págs., R$ 25)


 Farto de semideuses,Roberto Shinyashiki faz soar seu alerta por uma mudança de atitude. “O mundo precisa de pessoas mais simples e verdadeiras.”



ISTOÉ -
Quem são os heróis de verdade?
ROBERTO SHINYASHIKI -
Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado,
viajar de primeira classe. O mundo define que poucas pessoas deram certo. Isso é uma loucura. Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes. E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados. Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu a pena porque não conseguiu ter o carro nem a casa maravilhosa. Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa possa se orgulhar da mãe. O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes. Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros. São pessoas que sabem pedir desculpas e admitir que erraram.

ISTOÉ -
O sr. citaria exemplos?
ROBERTO SHINYASHIKI -
Dona Zilda Arns, que não vai a determinados programas de tevê nem aparece de Cartier, mas está salvando milhões de pessoas. Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos, empregado em uma farmácia. Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis. Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem. Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito “100% Jardim Irene”. É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes. O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana. Em países como Japão, Suécia e Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se mata? Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher que, embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.



ISTOÉ -
Qual o resultado disso?
ROBERTO SHINYASHIKI -
Paranóia e depressão cada vez mais precoces. O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece. A única coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança. Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos. Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas. Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.

ISTOÉ -
Por quê?
ROBERTO SHINYASHIKI -
O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento. É contratado o sujeito com mais marketing pessoal. As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência. Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras. Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas, como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei na hora. Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

ISTOÉ -
Há um script estabelecido?
ROBERTO SHINYASHIKI -
Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um presidente
de multinacional no programa O aprendiz? “Qual é seu defeito?” Todos
respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal: “Eu mergulho de
cabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar.” É exatamente o que o chefe
quer escutar. Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado
ou esquecido? É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma
forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder.
O vice-presidente de uma das maiores empresas do planeta me disse: “Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir.” Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor?

ISTOÉ -
Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?
ROBERTO SHINYASHIKI -
Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento. Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência. Cuidado com os burros motivados. Há muita gente motivada fazendo besteira. Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado. Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado. Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

ISTOÉ -
Está sobrando auto-estima?
ROBERTO SHINYASHIKI -
Falta às pessoas a verdadeira auto-estima. Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa. Antes, o ter conseguia substituir o ser. O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom. Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer. As pessoas parece que sabem, parece que fazem, parece que acreditam. E poucos são humildes para confessar que não sabem. Há muitas mulheres solitárias no Brasil que preferem dizer que é melhor assim. Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

ISTOÉ -
Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?
ROBERTO SHINYASHIKI -
Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis. Quem vai salvar o Brasil? O Lula. Quem vai salvar o time? O técnico. Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta. O problema é que eles não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia: “Quando você quiser entender a essência do ser humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham.” Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia. Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo. A gente tem de parar de procurar super-heróis. Porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.

ISTOÉ -
O conceito muda quando a expectativa não se comprova?
ROBERTO SHINYASHIKI -
Exatamente. A gente não é super-herói nem superfracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso. Hoje, as pessoas estão questionando o Lula em parte porque acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram. A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.

ISTOÉ -
É comum colocar a culpa nos outros?
ROBERTO SHINYASHIKI -
Sim. Há uma tendência a reclamar, dar desculpas e acusar alguém. Eu vejo as pessoas escondendo suas humanidades. Todas as empresas definem uma meta de crescimento no começo do ano. O presidente estabelece que a meta
é crescer 15%, mas, se perguntar a ele em que está baseada essa expectativa, ele não vai saber responder. Ele estabelece um valor aleatoriamente, os diretores fingem que é factível e os vendedores já partem do princípio de que a meta não será cumprida e passam a buscar explicações para, no final do ano, justificar. A maioria das metas estabelecidas no Brasil não leva em conta a evolução do setor. É uma chutação total.

ISTOÉ -
Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?
ROBERTO SHINYASHIKI -
Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente. Há várias coisas que eu queria e não consegui. Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos. Com uma criança especial, eu aprendi que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse. Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo. O resto foram apostas e erros. Dia desses apostei na edição de um livro que não deu certo. Um amigão me perguntou: “Quem decidiu publicar esse livro?” Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu. Não preciso mentir.

ISTOÉ -
Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?
ROBERTO SHINYASHIKI -
O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las. São três fraquezas. A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança. Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram. Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno. Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards. Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates. O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.

ISTOÉ -
Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?
ROBERTO SHINYASHIKI -
A sociedade quer definir o que é certo. São quatro loucuras da sociedade. A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se ele não tivesse significados individuais. A segunda loucura é: “Você tem de estar feliz todos os dias.” A terceira é: “Você tem que comprar tudo o que puder.” O resultado é esse consumismo absurdo. Por fim, a quarta loucura: “Você tem de fazer as coisas do jeito certo.” Jeito certo não existe. Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito. Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento. Você precisa ser feliz tomando sorvete, levando os filhos para brincar.

ISTOÉ -
O sr. visita mestres na Índia com freqüência. Há alguma parábola que o sr. aprendeu com eles que o ajude a agir?
ROBERTO SHINYASHIKI -
Quando era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes.
Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte. A maior parte pega o médico pela camisa e diz: “Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero ser feliz.” Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis. Uma história que aprendi na Índia me ensinou muito. O sujeito fugia de um urso e caiu em um barranco. Conseguiu se pendurar em algumas raízes. O urso tentava pegá-lo. Embaixo, onças pulavam para agarrar seu pé. No maior sufoco, o sujeito olha para o lado e vê um arbusto com um morango. Ele pega o morango, admira sua beleza e o saboreia. Cada vez mais nós temos ursos e onças à nossa volta. Mas é preciso comer os morangos.









Fonte: IstoÉ





20 comentários:

  1. Que lindo, precisamos sim de pessoas mais simples *---* da uma olhadinha no meu ?
    http://grandeigualdavi.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Daniela

      As pessoas estão tão preocupados em serem aceita pelo conceito que a sociedade criou que nem sobra tempo pra ver que pequenos detalhes é que fazem a diferença. A simplicidade está em cada mas poucos sabem pra que ela serve.
      A ignorância do ser humana é monstruosa.

      Beijos:)

      Excluir
  2. Já vi algumas entrevistas dele, ele é ótimo.
    Bonfindi pra vc tb, Pri
    Bjs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Paty,

      Eu não conhecia ele, realmente ele ótimo!
      Beijos:)

      Excluir
  3. Pri

    O atual presidente do Uruguai, Jose Pepe Mujica, tem 77 anos, é ex-guerrilheiro tupamaro, vive em casa própria, uma chácara a 20 km de Montevidéu, doa 90% do salário e faz um bom governo, segundo a imprensa. Mujica saiu sozinho outro dia para comprar uma tampa de privada, quando foi reconhecido pelos jogadores do time local, Huracán, que o convidaram para um churrasco e lá foi ele com a tampa da privada debaixo do braço.

    O que falta nesse mundo é HUMILDADE.


    Um grande abraço minha amiga

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Burgos,

      Talvez ele tenha percebido que no fim das contas quando se morre não vai levar nada. Agora imagina se o Lula por exemplo quer ter uma vida simples e assim e tratar seus problemas de saúde no SUS,por exemplo...Resumindo é preciso ser totalmente desprendido das porcarias que o mundo oferece e viver cada dia de uma vez.

      Fique bem:)

      Excluir
  4. Pri, eu percebo isso dioturnamente no trabalho, as pessoas preferem sempre ficarem "atuando" para não se exporem e preferem seguir os ditames da política corporativa. Aproveito a ocasião para te pedir que tires as letrinhas que são um "saco" para entender e digitar.

    Abraços

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tibiriçá,

      É muito mais fácil ser superficial, as pessoas preferem viver num mundo de faz de conta onde toda a história tem um final feliz mesmo que pra ver esse final seja preciso passar por cima de quem quer que seja. Hora pra que perder tempo olhando para o lado vendo a desgraça que paira abaixo dos nossos olhos,afinal eu não posso mudar o mundo, é este o pensamento da maioria e o que me causa vergonha do ser humano.
      Enquanto a maioria vivi preocupado com suas mesquinhes não sobra tempo pra perceber a simplicidade das coisas e que pra ser feliz precisa de tão pouco,nada vai mudar na história do ser humano!

      Quanto as letrinhas os devidos ajustes foram feitos,rsrsrs.

      Excluir
  5. Oi Pri ...saudades...tenho tido pouco tempo e minha internet não ajuda. Mas, vim te fazer uma visitinha. Esse tema realmente é polêmico, ontem mesmo estava conversando com uma pessoa que aparentemente ostentava uma posição, mas quis nos convencer que era humilde. Vai entender? Minha mãe, era uma mestra e ela dizia, não tem jeito minha filha, a riqueza e a pobreza ninguém consegue esconder por muito tempo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Vovó,bom dia!

      Mais uma vez sou grata pela visita,quanto as palavras de sua mãe não precisa de acréscimos.
      Beijos

      Excluir
  6. Se ainda não se inscreveu, se inscreva para o sorteio,ainda da tempo. Vamos edificar a cada dia mais a nossa vida. Grande beijo
    http://grandeigualdavi.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Dani,
      Obrigada pelo convite,cheguei atrasada rsrsrs.
      Beijos

      Excluir
  7. Querida Pri,
    o que o ser humano precisa é de humildade, companheirismo, solidariedade mas infelizmente cada um quer ser melhor que o outro. No mundo vale quem tem mais e quem paga mais, mas infelizmente só aqui neste mundo mesquinho pois a morte é o salário do pecado e quando morremos todos viramos carniça, carne padre, ao olhos de Deus todos nós somos iguais, não existe classe social, cor, raça, pra Deus somos um só.
    Mas o homem acha que é eterno, mas aqui é só uma passagem.
    Eu achei um absurdo o Lula falando que ele não morreu porque ele tem um bom plano de saúde, e disse que as pessoas menos favorecidas não tem a oportunidade de ter um bom tratamento médico, ele já foi presidente porque não mudou os hospitais e a educação, que estão a cada dia mais em estado de calamidade pública, uma vergonha.
    As ruas estão cheias de moradores de ruas e muitas famílias de bem , pois o aluguel e o preço de casa própria estão um absurdo. Eles não veem nada disso, só olham p/ eles.
    Falei de mais, acho que fugi do tema, rsrs.
    Eu queria mudar o mundo, rsrs, não aguento ver o meu próximo sofrendo e sendo humilhado.

    Tenha uma ótima semana!
    bjs ♥

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Andréa,

      Dizer a verdade não é falar demais,sinta-se a vontade para expor suas criticas a estes bando de basofiadores,eles sim falam muito e não fazer nada!

      Boa semana pra ti também,beijos.

      Excluir
  8. Falei demais, não de mais, kkkk.
    bjs ♥

    ResponderExcluir
  9. Feliz Dia dos namorados querida, que Deus esteja sempre presente em todas as areas de sua vida, um grande abraço.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Dani,obrigada pelo carinho em forma de palavras!
      Beijos

      Excluir